O lugar das mulheres em nossa cidade

Por Fernanda Coelho

2da2bb37-f3da-48fc-8641-381d5ae920bf– Rua sem iluminação, rua erma, ponto de ônibus sem abrigo, ponto de ônibus sem iluminação, ponto de ônibus em local ermo, furto, roubo, outros.

Estes são filtros que podemos pesquisar no aplicativo do disque 180, em uma busca que chama “Minha cidade mais segura” uma ferramenta colaborativa para que identifiquemos locais que colocam em risco a vida e a segurança das mulheres.

Mas lugares, iluminados, ou não, em ambientes urbanos, não colocam a vida de nenhuma mulher em risco. Pessoas sim. Homens sim. Logo se nota que esta não é uma questão urbanística, mas uma questão cultural. Com reflexos em outras áreas.

Ipatinga, onde estamos, é uma cidade curiosa, ela foi se formando urbana ao redor de uma indústria. Ela foi se formando culturalmente cerceada por políticas industriais patriarcais.  Ao mesmo tempo em que culturalmente se enriquecia justamente pela força que toda barreira traz ao rechaçar – e com isso ressoar em uma nova direção – as ondas criativas.

Temos, contudo, aqui, mulheres sendo estupradas em ruas com iluminação, ponto de ônibus com abrigo, ponto de ônibus em local movimentado, outros.

Temos, aqui, meninas sendo estupradas em escolas públicas. E temos vereadores – todos eles – contra a discussão de gênero nas escolas.

O escritor argentino Osvaldo Bazán disse, e talvez vocês já tenham ouvido que:

A criança judia sofre a estupidez do mundo, volta para casa e lá seus pais judeus lhe dizem: “estúpido é o mundo, não você”. E lhe dizem por que essa noite não é como todas as noites, e contam para ele a história daquela vez em que tiveram que sair correndo e o pão não fermentou. Dão-lhe uma lista de valores e falam: “Você está parado aqui”. E saberá a criança judia que não está sozinha. A criança negra sofre a estupidez do mundo, volta para casa e lá seus pais negros lhe dizem: “estúpido é o mundo, não você”. E lhe falam do berço da humanidade, de um barco, de uma guerra. Dão-lhe uma lista de valores e falam: “Você está parado aqui”. E saberá a criança negra que não está sozinha. A criança homossexual sofre a estupidez do mundo e nem pensa em falar com os pais, porque supõe que eles vão ficar chateados. Não sabe por quê, mas eles vão se chatear. E para seus pais, o pior é crer que seu filho não é como eles (…). A criança homossexual, só por ter nascido homossexual, só por ter sido parida em território inimigo, está em guerra com a religião, com a ciência e com o Estado. Como poderá uma criança enfrentar uma luta tão desigual?

Este é um texto que me toca muito. Porque é forte e real. E se você ouviu isso antes, é provável que tenha ouvido de um gay.  E é provável, ainda, que tenha te tocado também. Porque é verdade.

Mas também é verdade que toda mulher, só por ser mulher, sabe que vai enfrentar o machismo lá fora, e não terá, em tantos casos, o conforto de pais e mães e tios e tias e avós para a acolherem e falarem dos feminismos, das mulheres guerreiras, das amazonas, de Dandara, Lurdinha Rodrigues, de Reny Batista, da Claudiane do Farroupilha, nenhuma delas. Aqui também é assim. Na maioria das vezes a menina, só por ter nascido menina, já terá nascido em território inimigo, está em guerra com a religião, com a ciência e com o Estado. Como poderá uma criança enfrentar uma luta tão desigual?

O nosso espaço já está marcado e ele não é o espaço do poder dominante, nem o das ruas, ele é o da privação do espaço privado. A gente até pode trabalhar fora para ajudar o marido, mas de preferência não podemos ganhar mais do que ele, nem sair de casa sem a companhia dos homens, e se praticarmos esportes temos que jogar vôlei, podemos fazer balé, jogar buraco com as amigas, beber com moderação, e nunca beber quando saímos com o marido, porque sempre seremos nós as motoristas da rodada, apesar de eles dizerem que dirigimos mal, contrariando as estatísticas de acidentes, mas nesta hora ficarão felizes em serem conduzidos por nós. Quando não ficarmos em casa cuidando das crianças enquanto eles saem e se divertem com os amigos. Ao menos aqui em Ipatinga tem muito disso.

Mas nem os lugares ao lado deles, tampouco o espaço privado são espaços seguros.

E assim temos meninas e mulheres sendo humilhadas, violentadas e estupras nas ruas, mas também em casa, por suas famílias. Ou com a conivência desta.

Temos meninas sendo exploradas sexualmente por pessoas que deviam cuidar delas. Mas não podemos falar de gênero nas escolas. Não na frente de crianças e adolescentes que sofrem todos os dias justamente por este padrão desigual de gênero.

Falar de feminismos em uma cidade na qual ninguém ousa falar, nem mesmo o conselho municipal da mulher e suas entidades de mulheres, ou sua prefeita, ou mesmo sua deputada estadual presidenta da comissão da mulher da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Nenhuma delas ousa falar.

Falar de feminismos em uma cidade marcada por uma indústria de homens para homens, em que sempre trabalhou mulheres, mas na qual o poder sempre foi dado a eles, não interessa.

Afinal se o feminismo é a ideia radical de que as mulheres também são gente, é ideia perigosa demais para se espalhar em uma cidade como a nossa.

Cidade na qual a religiosidade cristã conservadora dita normas de convivência nas ruas e nas instituições públicas ferindo de morte uma cidade que deveria ser laica. Ferindo, a cada momento a liberdade e o direito de escolha das mulheres.

Aqui, o direito à cidade ainda é um direito incompleto.

E vem desde antes, desde o começo. Mas mesmo assim, nem tudo acontece como é moldado para ser.

Porque nossa cidade não foi feita pensando na gente, mas as quadras e campos que fizeram pra eles, são o primeiro lugar em que mostramos que o lugar da mulher em Ipatinga é onde ela ocupa, é onde ela está e se sentir confortável. Não tem perna de pau que resista a bola no pé dessa mulherada.

Até porque com todas as situações adversas, mesmo com todo o incentivo para nossos meninos, são nossas meninas e mulheres que se destacam como as melhores do futebol mineiro.

Caso não saibam há tempo que o melhor time de Minas no futebol de campo feminino é de Ipatinga ou de BH, sempre em pé de igualdade. E no último estadual deu Ipatinga ganhando com sobra do América Mineiro. E seremos o time a representar Minas Gerais na Copa do Brasil neste ano.

Outro fator discrepante é que aqui, ainda se fala de gênero na escola. E se não puder falar de gênero na escola, terão que rancar fora todas as professoras guerreiras e empoderadas e que enfrentam o mundo, mas não desistem de seu compromisso com a educação.

E tem que ter gênero na escola, porque tem gênero nas relações de poder que enfrentamos. Porque o estupro fora e dentro da escola é expressão máxima de como a violência de gênero se expressa quando não ensinamos nossos meninos a não estuprarem as nossas meninas. Bem como porque o espaço ou a falta dele que enfrentamos em nossa cidade tem a ver com o nosso gênero e com as expectativas que frustramos desse padrão cisheteronormativo e monossexista em relação à nossa vivência de gênero e sexualidade, ou não.

E se você não entendeu a última frase eu explico.

Vocês sabem que antes mesmo da gente nascer a gente associa a genitália daquele feto ou nascituro a um gênero: menina ou menino. E todas aquelas expectativas de cores, brincadeiras com boneca ou carrinho, jeito mais submisso ou agressivo, todas aquelas balelas que inventam e repetem tanto que custamos a nos livrar delas depois de adultas. Mesmo se quando crianças sabíamos que nada disso era algo inato em cada uma de nós, não com essa radicalidade que se propõe.

Assim, uma menina que joga futebol frustra uma vivencia que culturalmente atrelamos aos meninos. Não sei porque, já que foram as meninas as primeiras a jogar futebol, mas… um menino que usa salto alto também vai frustrar as expectativas de gênero, porque apesar de os homens terem sido os primeiros a usar salto, hoje a gente diz que só as meninas podem.

Continuemos, se a gente nasce com vagina e é menina, se sente menina, a gente é uma menina cis. Cisgênera ou cissexual.   Exemplos de pessoas cis, Dilma, Lula, a vizinha da esquina, as pessoas que compõem a mesa (ao menos se alguma é trans ainda não fez a transição e tá aprisionada no armário).

Mas se eu sou uma mulher que não nasci com vagina, se eu nasci com um pênis, mas me sinto uma mulher. Eu sou uma mulher trans, transexual. Feito a Roberta Close, a Lea T, a Lanna… E não importa se eu fiz ou pretendo fazer uma cirurgia de transgenitalização, importa a minha identidade, a forma como eu me sinto em relação ao meu gênero.

E onde entra o Tammy Miranda nessa lista? Ele é um homem trans. É uma pessoa que ao nascer foi designada como sendo do gênero feminino, mas se sente um homem. Então ele é um homem trans. Como também são o Lucas e o Madson dois dos fundadores do Grupo de Homens Trans do Vale do Aço.

Uma outra que forma que temos também de explicar o que é cis é dizer que quem não é trans, é cis. Porque o oposto de trans não é hétero.

Até porque a Roberta Close e a Lea T, o Tamy Miranda, o Lucas, são heterossexuais, são trans hétero.

Já o Madson, que é um menino trans também do grupo do Vale do Aço, é bissexual. É um homem trans bissexual.

Bissexual como eu. Embora eu seja uma mulher cis bissexual.

O que importa para dizer se você é hétero ou bi, ou lésbica ou gay não é o seu gênero, a sua identidade de gênero seja ela cis ou trans, mas o gênero ou os gêneros das pessoas que te atraem sexual, afetiva e/ou romanticamente.

Se você se atrai por pessoas de um único gênero que não é o seu (e esse seu não é o do seu registro, mas o gênero com o qual você se identifica), você é hétero. Se você se atrai por pessoas do mesmo gênero com o qual você se identifica, você é lésbica ou gay. Se você se atrai por pessoas de mais de um gênero você é bissexual.

Portanto, cis heteronormatividade é justamente esta norma fictícia de que todas as pessoas seriam cis e heterossexuais. E é por isso que dá um nó na cabeça entender que existem pessoas trans que não são hétero, que muitas vezes transformam seu corpo, mudam de nome, e transicionam de um gênero que no registro era masculino e se identificam enquanto mulheres, para ficarem só com outras mulheres, no exemplo que descrevi aqui seria uma mulher trans lésbica. Como Tamara Adrian, uma ativista Venezuelana.

Essa norma é fictícia porque desde que o mundo é mundo, desde que existem cidades, temos relatos de pessoas que fogem desse suposto padrão, que não se sustenta, mas sustenta desigualdades e hierarquiza pessoas na nossa sociedade, colocando as pessoas heterossexuais e cis como normais, e as demais como inferiores e anormais.

Mas eu falei em sociedade cis heteronormativa e monossexista. Expliquei o cis, o heteronormativo e o monossexismo tem a ver com a ideia de que todas as pessoas seriam monossexuais. O padrão aceito é a heterossexualidade, mas quando você o frustra espera-se que você ainda seja monossexual, que seja lésbica ou gay. O monossexismo apaga a bissexualidade, considera a norma a monossexualidade, e deslegitima a bissexualidade como uma identidade que seria inválida ou de menor valor comparada com as identidades monossexuais.

Então é comum vocês ouvirem dizer que pessoas bissexuais não existem, estão em cima do muro, não tem coragem de se assumir. Ou se existe é promíscua, infiel, vagabunda… E mesmo pessoas lésbicas e gays reproduzem este discurso. Todas estas questões impactam muito fortemente na vivência das pessoas bissexuais. E até espaços que seriam espaços inclusivos para pessoas LGBT podem não ser espaços de acolhimento para pessoas bissexuais justamente por causa do monossexismo.

Mas isso em um contexto urbano. Em conversa com companheiras do MST que pautam a questão LGBT nota-se que a cisheteronorma está presente, mas a hierarquia entre lésbicas, gays acima e bi abaixo não. O que vai ao encontro de uma pesquisa estadunidense, que cito, porque aqui temos muito poucas pesquisas sobre a temática bi, na qual analisando bissexuais nas áreas urbanas e rurais notou um índice de adoecimento mental maior entre bissexuais em relação as lésbicas e gays nas áreas urbanas, o que não acontecia na área rural.

A cisheteronorma nos ferra e quando os movimentos de lésbicas e gay surgem ela é contestada, mas com o reforço do monossexismo. Algo que precisamos repensar e desconstruir.

Eu falei que tem que ter gênero na escola, porque tem gênero nas relações de poder que vivenciamos. Porque o espaço ou a falta dele que enfrentamos em nossa cidade tem a ver com o nosso gênero e com as expectativas que frustramos desse padrão cisheteronormativo e monossexista em relação à nossa vivência de gênero e sexualidade, ou não.

E esse padrão de gênero e sexualidade também diz do meu lugar aqui nessa cidade.

Porque eu nunca vi cidade com tanta gente LGBT. Numa boa, cishétero deve ser uns trinta por cento. Mas ao mesmo tempo nunca vi tanta gente com medo de se mostrar e dizer que é LGBT.

Muitas meninas vivem relacionamentos estáveis com outras, e morrem de medo de dar um beijo na rua.

Olha que não temos relatos de mulheres que apanharam na rua de desconhecidos aqui por este motivo, infelizmente em outros lugares, como São Paulo, temos. Infelizmente, também, temos casos de homens que apanharam na rua por homofobia aqui em Ipatinga.  E de pessoas trans que foram mortas por transfobia.

E mesmo quando estas bissexuais e lésbicas daqui são independentes é muito difícil. É muito dolorido. É um armário que elas abrem mas do qual não saem.

Temos nossos guetos, como o Kart, entre outros. E nestes espaços as pessoas se libertam.

E na parada da diversidade, uma vez por ano, elas saem todas orgulhosas e felizes. Pessoas que você não leva a evento algum, que não andam de mãos dadas, que não beijam na rua, elas estão na parada. Felizes. Anônimas.

O bom que é a juventude vem aí pra mudar as regras. E vem com coragem. E se expondo também em outros lugares e em outros momentos. Mas falta muito.

E o armário no qual mulheres bissexuais e lésbicas cis se fecham, não tem espaço para muitas das mulheres trans. Porque por serem trans já foram descobertas. Ou enfrentam o mundo, ou perdem a batalha. E as estatísticas dizem que a expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil é de 30 a 35 anos de idade, como relatam ativistas trans…

Mas se o armário quebrou e não tem volta, a cidade não é delas. O dia não é delas. E a maioria só tem a noite para sobreviver. Porque a família não aceitou. Sem qualificação e por ser trans o mercado de trabalho não acolheu. E muitas delas só tiveram a prostituição como saída para seguir vivendo.

E não precisamos nem ir para BRs para ver fim de tarde ou noite mulheres trans oferecendo seus serviços sexuais para homens que durante o dia são “cidadãos de bem” transfóbicos, tantas vezes.

Mas por outro lado a noite que é o único momento que a cidade permite que muitas trans transitem, é o momento em que a cidade se fecha para muitas mulheres cis. Temos aquelas que também são exploradas pela indústria sexual. Mas as que não são, muitas vezes temem e evitam as ruas a noite, por não ser um espaço seguro pra gente.

É como no aplicativo do 180. Rua sem iluminação, rua erma, ponto de ônibus sem abrigo, ponto de ônibus sem iluminação, ponto de ônibus em local ermo, furto, roubo, outros.

Como se a cidade fosse o risco. Quando de fato é o homem quem violenta, mas como detém o poder, ele não corta na própria carne e deixa a vítima assumir a culpa, por estar no lugar errado, com a roupa errada, sem a companhia de outro homem… Como se livre feito um homem fosse.

Mas livres como eles temos que ser. E um passo significativo nesta liberdade diz respeito ao nosso direito de ir e vir, de dia e de noite, a sós ou acompanhadas, seguras e empoderadas.

E finalizo com duas citações, uma com um trecho de um texto que fiz em uma blogagem coletiva de 2014 para o dia mundial da visibilidade bissexual, pra dizer que:

Venho duma cidade onde revolta virou massacre

Onde o sangue sumiu no minério

Onde mesmo quem não sabe sente na pele

Sente a dor de ficar em cima do muro

Sente a dor da/o oprimida/o, mas sente calada/o

Porque também sem voz, Sente o medo de cair de novo

Intui novo massacre

Adoece com o minério

Vira pó, vira alergia, vira câncer, hidro e anencefalia

Mas … o minério que me suja, no sol me faz brilhar

E se tem comissão da verdade, [oxalá] a história se refaz

Pune quem tem culpa, liberta quem não vive em paz

E toda essa volta que dei

É pra dizer que sou mineira, sou de Ipatinga

Que sei de onde vim e pra onde irei

E pra não dizer que não falei de cores, um tempo atrás me deparei com uma intervenção urbana homofóbica que li, mas infelizmente não pude parar para complementar com um outro olhar. Só consegui fazer um tuíte, e com ele finalizo, enfim:

Picharam:"aqui mora um gay".Tdo prédio tem gay,lésbica,bi,trans.Um dia o arco-íris tocou o minério no chão de Ipatinga e fez-se a Purpurina!
Picharam:”aqui mora um gay”.Tdo prédio tem gay,lésbica,bi,trans.Um dia o arco-íris tocou o minério no chão de Ipatinga e fez-se a Purpurina!

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Este texto foi feito para uma fala em um seminário do qual participamos. Quem sabe em algum outro momento os desdobramentos desta fala não virem outro post também…

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