Bissexualidade no 8 de março de Cons. Lafaiete

A pedido das amigas do Coletivo Ideias Coloridas, Fernanda do Coletivo BIL escreveu um texto sobre a mulher bissexual para que elas lessem em uma atividade que fizeram em parceria com o Conselho Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres de Conselheiro Lafaiete/MG. Neste evento uma companheira lésbica e uma trans tiveram fala, faltava a fala da mulher bi, suprida com a carta escrita para este fim. De modo que saímos para as ruas em Ipatinga, mas também colaboramos com a atividade institucional das parceiras de Lafaiete.

Tamo junto, mulherada! Parabéns pelo evento!

Abaixo, segue o texto feito pela Fer:

 

É significativo em um evento que marca e problematiza a data do dia internacional da mulher falar nas mulheres em sua diversidade. Ir além da mulher cis heterossexual, mas também acolher, apesar do monossexismo, a mulher bissexual. Por este espaço posso apenas agradecer e dizer que Conselheiro Lafaiete está em posição de vanguarda em relação a muitas outras cidades neste país.

A fala da companheira lésbica cis e da companheira trans heterossexual já evidenciou a necessidade que temos de romper com os padrões cis-heteronormativos. A mim cabe falar de algo que já anunciei, mas falta explicar.

O monossexismo pode ser entendido como uma estrutura normativa na qual se pressupõe que todas as pessoas são monossexuais, considerando a monossexualidade como natural e padrão e a bissexualidade como uma identidade inválida, inexistente, ilegítima ou de menor valor que as identidades lésbica, gay e heterossexual.

É a partir desta lógica, do monossexismo, que a especificidade de se sentir atraída afetiva, romântica e/ou sexualmente por mais de um gênero, a que chamamos de bissexualidade, que é mais uma entre tantas outras partes de nós, soma a tantas outras partes de nós que a sociedade também considera parâmetro de hierarquização social para nos marcar de forma opressora, tentando negar o nosso direito humano de ser. Sem, contudo, lograr êxito.

Somos, existimos, mas a marca deste apagamento e hierarquização social se fazem presentes.

O apagamento ocorre no nosso dia a dia a cada instante, a cada nova relação monogâmica. Pois quando estamos namorando um homem somos vistas e chamadas de heterossexuais. E se nosso relacionamento é com mulheres vão nos dizer lésbicas. Mesmo que digamos que somos bissexuais, a todo momento a sociedade tenta nos tirar a “carteirinha de bissexual”. Seremos indecisas, lésbicas dentro do armário, estaríamos em cima de um muro que ninguém nunca viu, mas tanta gente repete que existe.

E acontece uma coisa curiosa com a bissexualidade, que lembra discursos de algumas pessoas que almejam cargos eletivos públicos: se a primeira resposta a uma pergunta não se mostra aceita, abandona-se o argumento e o substitui por outro que com aquele primeiro seria incompatível. Curiosamente quase ninguém percebe e questiona isso.

Mas se em princípio a bissexualidade não existe e nos jogam isso na cara a cada momento de nossas vidas, desde que nascemos, em cada experiência escolar, em cada novela de televisão, em cada conversa de bar ou reunião pública. Quando este argumento não é o suficiente para apagar a bissexualidade, surge a deslegitimação da pessoa bissexual.

Porque quando nos “permitem” existir, somos promíscuas, infiéis, vetores de doenças. Vale apontar que existem muitas pessoas heterossexuais, notadamente homens, que são promíscuos, infiéis, e por não se preocuparem com barreiras protetivas durante o sexo colocam a saúde de suas esposas em risco de DST várias. Mas também existem pessoas não heterossexuais que podem ser assim. Porque a promiscuidade, o cumprimento de acordos de fidelidade, e a prática sexual sem proteção, são características comportamentais de algumas pessoas, não de sua orientação sexual.

Deste modo, não confunda uma mulher dizer que é bissexual com ela querer fazer um ménage com você e uma amiga. Tampouco que ela quererá fazer sexo com qualquer pessoa e a qualquer momento. Esta ideia é bifóbica.

Vale apontar que o sexo entre lésbicas não é mais, nem menos seguro que o sexo entre uma lésbica e uma bissexual, ou entre duas bissexuais, se feito sem proteção. O motivo de ele ser feito sem proteção, vale dizer, é o completo descaso dos poderes públicos com questões afetas a mulher que não digam respeito à procriação. Faltam insumos de prevenção para práticas que não envolvem penetração com pênis ou objetos com sua forma e tamanho. Faltam campanhas educativas. Faltam profissionais que entendam dos riscos de transmissão, no sexo entre mulheres, de fungos, DST várias, entre elas hepatites e a AIDS. E é importante frisar isto, porque nem mulheres bissexuais, nem mulheres ou homens algum são vetores de doença. O que transmite uma DST ou fungo, é a prática sexual sem prevenção.

Fato é que tanto o apagamento quanto a deslegitimação da bissexualidade, são extremamente desgastantes emocionalmente, notadamente a longo prazo. E nos adoecem.

Os indicadores de saúde mental de mulheres bissexuais é pior do que o de mulheres lésbicas, e mulheres heterossexuais. Temos índices de transtornos alimentares maiores. Ideamos mais o suicídio. Temos taxas de alcoolismo e tabagismo distintas também.

O acesso a saúde é um direito incompleto. Porque a bifobia que marca a sociedade, existe naquela e naquele que nos atende. E esta relação médica ou médico e paciente sofre as consequências disto, consequentemente nosso tratamento também é comprometido por este motivo.

Não raro, psicólogas associam estereótipos que a sociedade impõe a pessoas bissexuais com doenças, que não associariam a pacientes com os mesmos sintomas, mas que não se declaram bissexuais. Sendo muito comum que pessoas que buscam contatos de psicólogas que atendem lésbicas, sintam-se deslegitimadas, desrespeitadas, violentadas em atendimentos com psicólogas que não foram ensinadas a questionar o monossexismo e atuar sem que ele influencie negativamente em sua prática.

Mas não é só na saúde. No Direito a bissexualidade é invisibilizada constantemente. Vale apontar o julgamento da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal, que foi fundamental no avanço dos direitos civis de mulheres bissexuais e lésbicas, mas que em cada momento nos apagava dizendo que pessoas do mesmo sexo seriam um casal homoafetivo. Não. Nem sempre. Porque se um dos elos deste casal for bissexual, ou mesmo ambos forem, não seremos um casal homo. Como o beijo não é lésbico. Pode ser lésbica a mulher que beija, mas a orientação sexual não está no ato. É eloquente imaginar duas mulheres bissexuais se beijando. Um beijo de duas mulheres bissexuais jamais será um beijo lésbico. E este apagamento em cada demanda, nos monossexualizando forçosa e equivocadamente é mais uma expressão da bifobia nas instituições.

Para além delas, e para não me alongar muito mais é preciso dizer que determinantes sociais e culturais ainda atravessarão as mulheres bissexuais. Questões de classe, regionalidade, raça e etnia farão com que a nossa vivência enquanto mulheres bissexuais seja distinta, não apenas das pessoas monossexuais, mas entre as próprias mulheres bi.

De modo que se a mulher bissexual for negra, isto tornará distinta a forma como a sociedade a trata, se comparada com mulheres bissexuais brancas. E também será distinta da forma como a negra lésbica é encarada socialmente, porque se as negras são vistas como corpos a disposição e lésbicas são objeto do fetiche, as bissexuais ainda temos sobre nós a pecha da promiscuidade, marcador que distingue a forma como o racismo impacta nas mulheres bissexuais muito fortemente, entre outras questões.

Mas é preciso dizer que as opressões que nos afetam podem ser desconstruídas. Em momentos como estes avançamos neste sentido. Espero que cada uma de vocês que me ouve, saia daqui repensando alguns preconceitos. E se puder, ajude uma amiga, um amigo, uma vizinha, o padeiro, a desconstruir suas ideias bifóbicas. Porque a bissexualidade deve ser apenas motivo de orgulho, como cada característica nossa que não oprime outras pessoas, e nos completa como somos, deverá ser.

Obrigada, amigas do Ideias Coloridas, companheiras conselheiras e demais ouvintes.

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