BLOGAGEM COLETIVA VISIBILIDADE BI: Lilás

Hoje marca-se mundialmente a VISIBILIDADE BISSEXUAL. Ao que tudo indica teria sido uma data escolhida aleatoriamente pelos ativistas estadunidenses Wendy Curry, Michael Page e Gigi Raven Wilbur a fim de visibilizar a identidade mais invisível e negada da sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais).

Para visibilizar o dia de hoje no Brasil, neste momento de movimentação bissexual ímpar no qual vivemos, o Bi-Sides convocou uma blogagem coletiva. Apesar do sentido de falta de pertencimento a este dia, que não fala da história, que nunca foi por nós tão apropriado como neste ano, por termos datas com histórias significativas do movimento bissexual para marcar uma visibilidade própria, um pedido do Bi-Sides não poderia ser negado por nós. Aderimos. E no fim, todo dia é dia de nos posicionarmos contra toda forma de opressão, especialmente a opressão bifóbica e lesbofóbica.

Em outros posts vimos que foi falado de invisibilidade, preconceitos, nossa representatividade na mídia (tão muito legais!). Daqui vai um desabafo sem rigor ou pretensão formal. Um desabafo para um grupo de feministas radicais que em seu discurso pregam a inexistência da bifobia, mas em sua própria fala não fazem outra coisa senão esbanjar bifobia e transfobia por aí.

 

LILÁS

Por Fernanda Coelho

Em mulheragem à Daniela Andrade, trasnfeminista, representando todas as mulheres trans tratadas como homens pelas radfem, e também os homens trans que são tidos equivocadamente como mulheres.

Em memória de Gerciane Pereira Araújo,e Renildo José dos Santos. E na pessoa de ambos todas as pessoas que a bifobia matou, ainda que tenha sido taxado um crime homofóbico, lesbofóbico, crime passional ou envolvimento com drogas, ou cujo suicídio ou adoecimento foi motivado pela bifobia.

Solidariamente a todas as radfem com quem já tive a oportunidade de conversar.

 Sem título-1h

Radicalizar é preciso?

É preciso muito mais

Eu não sou como você

Nem preciso ser

Eu não sou como ela, mas você não quer nem saber

Mesmo nascendo com vagina, mesmo sentindo-me mulher

Mesmo não sendo Daniela, mesmo não sendo estuprada em banheiro

Dela me aproximo, ouvindo ou lendo discurso de radfem

Que não me impede de viver, como quer impedir que Daniela viva

Que não me impede de ser, como quer impedir que Daniela seja

Não me é menos cruel ao me definir como você queria que eu fosse

Como eu nunca serei

Como nunca morrerei

Como nunca passarei

Porque se quer saber,  você não sabe

Mas se quer saber, de mim eu sei

E não vou me calar

Mesmo com medo, mesmo que doa

E minha identidade é Bissexual

Porque que nem homofobia, lesbofobia e transfobia, a bifobia existe e mata

Matou Renildo, matou Gerciane, matou em Coqueiro Seco e em Teresina

Matou em mais lugares, matou sem deixar nome

Mata todo dia

Matou o respeito que por você eu tinha

Matou algo em mim que eu nem conhecia

Matará muita coisa mais

Não matará minha fala

Minha ousadia

Não matará meu medo, que me impulsiona a cada dia

Não matará o rastro que deixarei

Não matará o que virá

Nem quem virá

Bifobia não vai acabar

Mas vai amenizar, nem que pra isso eu tenha que me tornar duas, três, cem, um quadrilhão

Porque força pra isso eu tenho

Pares pra isso vou buscar

E se não verei tanta coisa

Ao menos começarei a desvendar

Vendo sem ver do jeito que tá, é que não da pra ficar

Sem humanidade a gente não faz sentido

Volta

Volta nossa humanidade

Volta nossa luta por igualdade

Pra humanos direitos, canhotos, e ambidestros

Por mulheres, sem decidir por elas quem elas sejam, o que farão, quem quererão

Sejam eu, seja você, seja ela e Daniela

Por homens livres também

Eles não são todos iguais, são privilegiados, mas nem todos opressores

Nem nós

Mas em nossa desigualdade fundante, há a dor pela opressão da mulher

Há a vontade de radicalizar a luta

Só não estamos em lados opostos

Nem eu que pego homem, nem a mulher que você julga ser homem

Nem o homem que você trata de mulher

Eu não sei de você. Por que você sabe de mim? E dela?

E de Daniela?

Você não viveu a vida dela

Você nem cresceu com ela

Para um pouco

Sente a opressão

Que está ao seu lado, mas também passa ao largo

Do que você tem como privilégio, mas na pele da outra/o pode ser imperiosa opressão

Violência já tem demais

Violentar não te convém

Vem comigo

Não afasta não

Faz voltar o respeito, mesmo sem o tesão

Vem de mãos dadas

Já te estendi a mão

Quer saber, juntas podemos mais

Juntas por todas as mulheres

Libertaremos mais

Venho dum estado onde liberdade é coisa séria

Onde repressão marcou demais

Venho duma cidade onde revolta virou massacre

Onde o sangue sumiu no minério

Onde mesmo quem não sabe sente na pele

Sente a dor de ficar em cima do muro

Sente a dor da/o oprimida/o, mas sente calada/o

Porque também sem voz, Sente o medo de cair de novo

Intui novo massacre

Adoece com o minério

Vira pó, vira alergia, vira câncer, hidro e anencefalia

Mas na bandeira estadual ergue com o escrito

Liberdade ainda que tardia

Minha bandeira, meu guia

E o minério que me suja, no sol me faz brilhar

E se tem comissão da verdade, a história se refaz

Pune quem tem culpa, liberta quem não vive em paz

E toda essa volta que dei

É pra dizer que sou mineira, sou de Ipatinga

Que sei de onde vim e pra onde irei

Do pouco de você que sei

Sei dizer que não nos afastamos tanto

Que nossa luta é por liberdade

Sem opressão

Por equidade

E não sei, talvez, se eu e você tentássemos ser quem somos

Só nós de verdade

Sem querer mudar a outra

Tentando breve paz

Com Daniela sendo ela, sem sua maldade

Talvez a brevidade vire mais tempo na verdade

E mude a vida de muita gente

Mude tanto que alcance nosso opressor

E o impeça de matar

Que não tenhamos mais Renildos e Gercianes, ou Margaridas e quantas mais

Pra juntas quebrarmos as algemas

Pra o mundo ser lugar melhor

Pra gente viver com humanidade

Pra gente dançar, quebrar, colar, e fazer valer a pena

O dia de hoje

De amanhã

Deixo meu sorriso, cansei das lágrimas e do rancor

A porta está aberta, luzes acesas, tem passe livre

Tem café com pão de queijo

Tem tapioca, munguzá, bolo de rolo e todas as delícias

Que em Minas e Pernambuco dá

Mas convido você pra cerveja gelada na esquina, porque o que temos mesmo é que espantar o mal

Ele está na opressão, e vai por mim, ele é que é o lado de lá.

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